17.1.07

Catarina

Me beijou, bem devagar, na tríplice fronteira entre o pescoço, a nuca e a orelha. Cabelos longos, levemente cacheados e pretos. Olhos entre o castanho e o verde. Sinalzinho marrom na bochecha, perto do nariz. Uma boca que... “Vem comigo”, disse, me arrastando pelo braço. Sorriu outra vez. E pensar que eu nem queria ir àquela festa.

Branca. Tinha a pele branca de quem odeia sol. Um metro e setenta e sete da melhor carne branca. Perfeição é uma palavra que não está à altura de Catarina, se me permitem o trocadilho.

Podia não ser exatamente a filha que Seu Lemos e Dona Lívia pediram a Deus. Saía todas as noites e voltava quase sempre de manhã. Sim, isso era tudo o que os dois sabiam dela. Imaginavam coisas, é verdade. Todo pai imagina. E o mais engraçado é que tudo o que eles imaginavam não era nem 10% do que Catarina aprontava. Os pais nunca acham que seus filhos podem ser piores que os do vizinho.

Não é à toa que os pais não sabiam de nada. Mentia como ninguém. Anos de prática. Longo histórico de blefes, desculpas esfarrapadas, dissimulações e histórias fantásticas.

Seu Lemos me explicou o motivo de Catarina se chamar Catarina. O velho gosta de História. Catarina, a Grande, foi uma imperatriz russa do século dezoito. Ele contou que se sua filha tivesse nascido homem teria se chamado Napoleão. Ainda bem que nasceu mulher.

“E minha mãe, meu Deus do céu, minha mãe só conhece o pau do meu pai! Por isso ela é como é. A castidade, o celibato, a abstinência e a monogamia vão contra as leis da Natureza. É a Seleção sexual!”

Pôs o CD na vitrola e iniciou o ritual. Acendeu o incenso, ligou a luminária, apagou a luz do quarto e sentou na cama. Parou por aí. Ela não foi muito original quando terminou tudo. Olha, Rafael, a gente precisa ter uma conversa séria...

O Socialismo é um mito. No fundo, ninguém quer saber dessa história de igualdade. Egoísmo e competição são os motores da civilização. Garantida a sobrevivência, o homem passa a buscar, instintivamente, ser melhor do que ‘o outro’. E assim vai levando toda a espécie ao que chamamos de evolução. Fala-se muito no tal instinto de preservação, mas se não fosse o instinto de competição ainda estaríamos vivendo em ocas ou cavernas. Ou até, quem sabe, a raça humana já teria sido extinta.
O mundo é assim. Opressores e oprimidos, fortes e fracos, fodões e fodidos. Darwin, meu caro.