17.1.07

Prefácio

Escritores e editoras adoram lançar coletâneas, gravadoras só querem fazer acústicos com sucessos consagrados e convidados especiais, emissoras de TV reprisam filmes e programas aos borbotões – quando não se copiam mutuamente, reproduzindo ou reinventando fórmulas gastas.
Criatividade e originalidade cedem cada vez mais espaço à mediocridade. E a cultura de massas pasteurizante avança.
Chegou a minha vez. Quero anunciar a entrada do MeiaBoca na era da redundância.

Nos primeiros tempos, o Boquinha tinha uma cara bem diferente. Eu não escrevia ficção, os posts costumavam ser minúsculos e tinha atualização praticamente todo dia. Alguns aí devem lembrar. Enfim, era um blog que parecia um blog. Em parte devido à essa frequência diária, os assuntos fúteis dominavam. Falava de mim, embora freqüentemente de forma velada; não raro dava conselhos, inclusive sentimentais, e até horóscopo citava. Mas também tinha coisas que se salvavam.
Guardo no computador tudo o que já foi publicado aqui. No começo era tudo bagunçado, tudo num arquivo só. Depois criei outros arquivos e dividi os textos em “categorias”. Pra vocês terem uma idéia do tanto que já escrevi, só o maior desses arquivos atualmente está com 156 páginas.

Eu enrolei, enrolei e ainda não disse que essa nova filial do MeiaBoca é uma antologia de textos e trechos de textos (eita, um trava-língua!) publicados na matriz ao longo de quase quatro anos, três templates, três cursos de graduação, duas casas, dois casos, dois óculos, dois anos sem cortar o cabelo etc.
Há um tempo atrás eu reli tudo o que já foi produzido para o blog. Todas aquelas 156 páginas, fonte Times New Roman, corpo 12, espaçamento simples, 450 mil caracteres (o que o ócio não faz com uma pessoa?) Isso me proporcionou ter um panorama da minha carreira de blogueiro, me deliciar relembrando fatos já esquecidos e também me torturar quando via posts ridículos. Isso me fez também fazer uma seleção dos textos mais significativos, um post-pourri, que guardei para usar numa ocasião em que precisasse, ou que a falta de vergonha e de inspiração me fizesse ceder ao nefasto artifício da repetição.

Eu só não fui organizado o suficiente pra datar os textos. Pra compensar isso eu teria que ir aos arquivos do Blogger, o que daria um puta trabalho. Mas os mais perspicazes e antigos vão lembrar dos contextos em que vários posts foram publicados.
Para colocar alguma ordem no caos, e também para que vocês não precisem ler tudo de uma vez, a retrospectiva está dividida em três partes.

Egolatria

Meu horóscopo pra hoje: “Você vai desistir de terminar seu relacionamento amoroso.”
Porra! Que relacionamento amoroso, caralho?!


Neo eu não sei, mas Eu sou O Escolhido.


Penso que todo essa discussão científico-religiosa-filosófica em torno de Matrix é em grande parte promovida pela Warner para aumentar a bilheteria e vender produtos com a marca Matrix. Se existe uma força altamente poderosa e que está por toda parte, ela se chama Marketing.


Gio tava me contando que leu uma crônica de Verissimo em que ele lembra que até hoje não se descobriu uma função para o hímen, a não ser a de lacre. Isso me levou a concluir que: Há duas coisas inúteis no corpo humano: o baço e o cabaço.


Meu horóscopo de hoje (Aquário):
Você tem o signo do ascendente do Brasil. Sabe de antemão o que vai virar notícia neste país, o que vai apelar aos sentimentos populares.


Essa polêmica sobre a liberação do casamento entre homossexuais é uma briga do Bem contra o Mel.


Desculpem os dois dias sem postar. Nos últimos dias só tive tempo pra viver.


Fuçando uns e-mails antigos ontem, me dei conta de que, no último 7 de setembro, enquanto o Brasil comemorava mais um aniversário da sua “independência”, começava uma nova fase na minha vida. Uma fase de dependência.


Já sei como vai se chamar minha autobiografia: Viver para contestar.


Eu e Breno fizemos um pacto: o primeiro que passar dessa pra melhor terá um cinebiografia feita pelo que sobrou, mesmo que nossas vidas não tenham sido interessantes, o que provavelmente vai ser um caso tanto de um como de outro.


As aulas acabaram, é verdade. As conversas nos bancos do Decom estão em extinção. As aulas de Antropologia fazem falta, ou melhor, o que rolava depois das aulas de Antrolologia fazem falta...


O PT vai fazer com que eu, mais cedo ou mais tarde, vote na Direita, e eu nunca o perdoarei por isso. Esse governo ainda engana alguém?


Na União de hoje saiu uma foto que eu tirei. É a quarta vez que uma foto minha é publicada num jornal. As fotos em si não são nada demais, mas isso não impede de eu ficar me achando o DNA de Maria Clara Diniz.


Com a ajuda de uma trilha sonora adequada, Craven construiu com eficácia uma atmosfera assustadora - a cena da ressurreição de Virginia Wolff, saindo do rio, naquela névoa, é de arrepiar. As Horas 2 tem vigor estético, o que influi na mise en scene diegética do seu leitmotiv.


Cada vez mais a Globo está inserindo prestação de serviço em seus telejornais. Mas ainda é pouco. É política demais, é cotação do dólar demais, é faixa de Gaza demais. E o-cano-que-estourou-há-uma-semana-e-a-Cagepa-ainda-não-veio-consertar de menos. O Jornal Nacional tem muito o que aprender com o Caso de Polícia.


E música eletrônica de cu é rola.


O fotolog chegou pra realizar o sonho de milhões de ter sua coluna social particular. A menina cria o fotolog, posta uma foto sua, de perfil, a que se seguem comentários sobre como ela fica bem de perfil. No dia seguinte, vemos uma imagem da sua barriga, pois ela quer mostrar para o mundo como ficou de piercing no umbigo. Quatro leitores dizem que ela ficou maravilhosa; cinco querem saber porque ela não pôs a jóia há mais tempo, e, por último, uma amiga invejosa que não quis se identificar argumentou que “piercing no umbigo é muito Carla Perez”. Qual o exercício intelectual que se faz pra legendar uma foto..? Que enriquecimento cultural se obtém visitando esse tipo de site? Pra ser acadêmico, a conjuntura do fotolog favorece a superficialidade e a futilidade. Pra ser curto e grosso, fotolog emburrece.

É tudo verdade

Como vou falar do meu problema para o meu problema?


Vou sentir falta de você. Do fundo do meu coração. Aliás, do cérebro mesmo. O coração não passa de um músculo estúpido que só serve pra bombear sangue e matar o povo de infarto.


O problema não era só a monogamia literária. O pior é a pose de inteligente. Quando aparecia (ou ela criava) uma oportunidade pra citar Clarice lispector, ganhava o dia. Ficava com aquela cara de bem-comida por horas.
- Um dia, talvez, a gente volte...
- É, quem sabe? – despediu-se Júlio, antes de presentear Ana com a última edição de A Hora da Estrela.


As últimas notícias que tinha dela era que tinha engravidado e foi aquele escândalo, como-é-que-pode-uma-menina-tão-nova, e que a família exigiu que ela tirasse e tentaram abafar mas a notícia acabou vazando e foi aquele ah-meu Deus-vai-ficar-mal-falada!
- Feliz ano novo, Valquíria.
- Ah, me chama de Val...
Mas o que porra queria comigo? Era o que eu precisava saber. Já tinha o que fazer no novo ano.


- Oi, Bruno! Qt tempo...
Deve estar de sainha e blusinha. Que horas? 2:24. Não, a essa hora deve estar de pijama ou (Uh!) nem isso...
- Pois eh, quanto tempo.
- Ei, preciso dar uma saidinha. Vou comer
Comer? Ora, não me mate de inveja...


A voz interior berra para eu ficar quieto, na minha, parta pra outra, seu idiota, mulher é que nem biscoito vai uma e vem dezoito, mas eu respondo foda-se, porque você é a coisa mais importante do mundo pra mim e eu provavelmente te amo mais do que a mim mesmo.
Amo quando você descobre qualidades em mim que nem eu conhecia, quando você se aconchega em mim no cinema, a inteligência, o perfume, a forma superior de demonstrar ciúme, sua classe, sua capacidade quase infinita de tolerar quase todos os meus arroubos de grosseria. Estou morrendo de saudade da sua pele lisa e quente, dos seus olhos verdes e penetrantes... E por falar em penetração, como vou conseguir viver sem sentir o gosto incomparável da sua buceta?


Ver o crepúsculo na serra de Santa Luzia foi demais. Comecei a chorar, acredita? E sabe há quanto tempo eu não chorava? Aí parei num posto e o frentista álcool ou gasolina, doutor? Álcool. Mas não pro carro, é pra mim mesmo. O que você tem aí de bebida? Agora só tem Dreher, doutor. Manda. E lá vou eu de Santa Luzia até Patos tomando conhaque no gargalo e dirigindo. Você sabe o que é dirigir mais de 40 km, numa rodovia, à noite, bêbado? Liguei o rádio. Não tinha levado CD. Só pegava uma FM. Sabugi FM, acho que era isso. A Sabugi FM devia tocar Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta, Calypso. Ou Luiz Gonzaga. Mas em vez disso tocou Fagner e Zé Ramalho. É sacanagem demais, o caba chorando de dor-de-cotovelo e ter que ouvir Zé Ramalho e Fagner?!


É como dizem por aí: “Os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor.”
Cissa: Fazer amor, fazer sexo... no fim vai tudo pro mesmo buraco...
A mulher, como consequência da ausência do pênis, distribui suas áreas de prazer por todo o corpo. O corpo da mulher é um grande campo minado erógino, meu amigo! Isso você vai encontrar aqui no capítulo 31 de “Os segredos do Bem-Foder”.


Foi a primeira vez que se beijaram naquele dia. Foi a primeira vez que se beijaram na chuva. Foi a primeira vez que se beijaram. Foi a primeira vez.

Catarina

Me beijou, bem devagar, na tríplice fronteira entre o pescoço, a nuca e a orelha. Cabelos longos, levemente cacheados e pretos. Olhos entre o castanho e o verde. Sinalzinho marrom na bochecha, perto do nariz. Uma boca que... “Vem comigo”, disse, me arrastando pelo braço. Sorriu outra vez. E pensar que eu nem queria ir àquela festa.

Branca. Tinha a pele branca de quem odeia sol. Um metro e setenta e sete da melhor carne branca. Perfeição é uma palavra que não está à altura de Catarina, se me permitem o trocadilho.

Podia não ser exatamente a filha que Seu Lemos e Dona Lívia pediram a Deus. Saía todas as noites e voltava quase sempre de manhã. Sim, isso era tudo o que os dois sabiam dela. Imaginavam coisas, é verdade. Todo pai imagina. E o mais engraçado é que tudo o que eles imaginavam não era nem 10% do que Catarina aprontava. Os pais nunca acham que seus filhos podem ser piores que os do vizinho.

Não é à toa que os pais não sabiam de nada. Mentia como ninguém. Anos de prática. Longo histórico de blefes, desculpas esfarrapadas, dissimulações e histórias fantásticas.

Seu Lemos me explicou o motivo de Catarina se chamar Catarina. O velho gosta de História. Catarina, a Grande, foi uma imperatriz russa do século dezoito. Ele contou que se sua filha tivesse nascido homem teria se chamado Napoleão. Ainda bem que nasceu mulher.

“E minha mãe, meu Deus do céu, minha mãe só conhece o pau do meu pai! Por isso ela é como é. A castidade, o celibato, a abstinência e a monogamia vão contra as leis da Natureza. É a Seleção sexual!”

Pôs o CD na vitrola e iniciou o ritual. Acendeu o incenso, ligou a luminária, apagou a luz do quarto e sentou na cama. Parou por aí. Ela não foi muito original quando terminou tudo. Olha, Rafael, a gente precisa ter uma conversa séria...

O Socialismo é um mito. No fundo, ninguém quer saber dessa história de igualdade. Egoísmo e competição são os motores da civilização. Garantida a sobrevivência, o homem passa a buscar, instintivamente, ser melhor do que ‘o outro’. E assim vai levando toda a espécie ao que chamamos de evolução. Fala-se muito no tal instinto de preservação, mas se não fosse o instinto de competição ainda estaríamos vivendo em ocas ou cavernas. Ou até, quem sabe, a raça humana já teria sido extinta.
O mundo é assim. Opressores e oprimidos, fortes e fracos, fodões e fodidos. Darwin, meu caro.